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A cozinha como ateliê

A Gastronomia é uma área de experimentação até pouco tempo considerada um nicho, uma pérola a ser apreciada por poucos e bons. E a crescente disseminação de conteúdos que se relacionam com o tema tem popularizado o acesso à fruição desse estado de ânimo - digo mais: o que tem acontecido é a retomada de um direito.



Na boca do estômago


A Etimologia é sempre uma boa amiga quando queremos entender um conceito: buscar as origens de algo nos faz compreender o momento presente e elucubrar sobre como será o futuro. Gastronomia vem da junção de 'estômago' e 'estudo' - daqui a gente já percebe que a palavra cobre mais informação do que simplesmente o ato de comer; quando falamos de 'estudo' um leque de opções investigativas se abre.


A começar pela constatação de que a Gastronomia fala essencialmente da evolução humana: o ser pré-histórico que desenvolve ferramentas de caça e cocção, passando de uma alimentação vegetariana para a carnívora; a percepção de que era possível cultivar sementes e domesticar animais ampliando as opções vistas à mesa; a ascensão do escambo e posterior comércio com a troca de ingredientes. Até o senhor Tempo nos trazer o pão, sim a bendita criação que simboliza a nossa interação com os 4 elementos: o trigo como fruto da terra, a água como aglutinadora, o ar que traz maciez, e o fogo que transforma tudo em alimento.


Seria possível tratar a Gastronomia de diferentes formas, pois como dizia Saussure "o ponto de vista cria o objeto" - mas hoje quero falar de uma perspecitiva em específico: a criação. Comer é uma necessidade física, mas também pode ser uma experiência criativa! Não vou nem falar do ato de cozinhar.. esse cabe em um outro texto. Meu intento hoje é te fazer perceber que estar inteiramente presente no momento da sua refeição vai ativar a sua Criatividade (e dependendo da comida, também vai te fazer querer aprender a cozinhar :P).


As cores, os aromas, as proporções, as texturas de um prato são capazes de nos preencher a alma. E sob um olhar mundano, podem bem dar aquele impulso no seu processo criativo.

Eu sei que pode parecer conversa de hippie, mas eu prometo que parto de um ponto de vista bem pragmático: lembra do 'estômago' na Etimologia? Pois então, a medicina chinesa postula a milênios que os órgãos do aparelho digestivo estão relacionados à capacidade de realização do ser humano - aos céticos, um lembrete: a ciência vem corroborando as afirmações orientais.


Sem falar da experiência que acontece um pouco antes, na boca: o sentido gustativo foi expandido para além da vivência física e já foi associado à racionalidade - 'saber' vem do latim 'sapere', ter gosto (olha a Etimologia aí); as expressões 'bom gosto', 'eu gosto' já não se limitam à mesa, e as usamos para emitir juízos de valor sobre os mais variados assuntos. Comer também nos define como indivíduos sociais, pois é algo acontece em situações relacionais: da amamentação, passando pelas papinhas, a comida da vó, os lanches pós balada com os amigos, um jantar romântico.


Então estamos falando de uma atividade que mexe não só com processos afetivos, mas também identitários - temas que estão intrinsecamente ligados à fruição da Criatividade (não custa lembrar que aqui a Criatividade é considerada como ferramenta, não dom): você se constrói como pessoa através das vivências que teve e das capacidades estimuladas enquanto crescia. A parte boa de ser adulto é que podemos tomar as rédeas da Vida e proporcionar a nós mesmos experiências que reforcem ou transformes partes dessa identidade, como bem entendermos.


Falando no âmbito pessoal, comer é um prazer que me escapa à descrição verbal. Ainda que eu tente, não consigo traduzir bem o que senti quando o prato de cerâmica da ELA CANELA foi posto na minha frente: a simplicidade elegante, a harmonia entre os elementos.. uma criação que me fez sorrir. O pain au chocolat da Mercearia da Mila que preencheu minha boca com felicidade enquanto eu admirava a bela arquitetura da Embaixada da França.


E aí chagamos na minha favorita: a gastronomia vegetariana | vegana. Ando abismada com a evolução dessa cozinha, e acredito que ela define o argumento que tento trazer com esse texto.

Quase como se fechássemos um ciclo evolucional, o ser humano passa a usar todo o conhecimento adquirido pelos processos descritos acima e na relação com a carne para cozinhar alimentos de origem vegetal. As técnicas, os maneirismos.. numa espécie de movimento avantvintage vemos chefs se especializarem no trato com aquilo que a terra dá.


Aqui devo citar o incrível TEVA que me apareceu como feliz surpresa nos últimos meses em São Paulo; o HOMA com localização e ambiente que só agregam à experiência gustativa; a receptividade internacionalista do caseiríssimo TIFFIN; a simpatia pet friendly do HEIM CAFÉ; e o hors concours Legumi com um set de sushi vegano que me proporcionou uma experiência surreal.


Pra fechar esse texto-manifesto, um pedido: seja qual for o alimento que esteja diante de você, aprecie esse momento como algo sagrado - não só porque ter o que comer é uma dádiva, mas também para destrancar a Criatividade que veio na sua configuração de fábrica. Craitividade é ferramneta e a Gastronomia é a maior prova disso.

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Lisboa - Portugal