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Do ranço

A terra gira, às vezes capota... o tempo voa e a vida muda em segundos, mas por vezes aquele amargo da boca demora mesmo a passar: por que é que a gente sente rancor?

"Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião. O tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração."


Espiralar


Hoje me vi numa situação em que o Rancor me olhou de frente. Minha vida está super bem encaminhada, mesmo em um período tão difícil como o que 2020 nos impôs por conta da pandemia: estou satisfeita com as grandes decisões que tomei, minhas relações afetivas são as mais saudáveis desde muito tempo, amo o que vejo no espelho e a paisagem que as atuais janelas me mostram. E num instante, ao saber de uma notícia sobre pessoas do meu passado profissional recente, senti uma quentura na boca do estômago e o maxilar travar.


Fui dar uma fuçada - pode falar stalkeada mesmo - nas redes das referidas e a sensação só aumentou... imediatamente, voltei pra dentro e me perguntei por quê, para quê eu estava sentindo aquilo. E fui investigar (nas minhas muitas instâncias internas, e na internet) qual era a essência do que estava se passando comigo. A internet, como boa esponja que é, me mostrou o que o inconsciente coletivo pensa sobre essa sensação, o já famoso ranço: com nuances mais ou menos positivas, a linha geral diz que esse é um sentimento ruim e só você quem perde ao experimentá-lo.


Meu detetive particular logo me acalmou - viva a terapia! (e o budismo tibetano) - lembrando que essa valoração entre positivo vs. negativo não se aplica a sentimentos. Ufa! Sim, sentir é parte inerente dos seres humanos - trust me, I'm canceriana ;) - o que pode feder é aquilo que a gente faz a partir do que sente. Me explico: você (eu, no caso) não escolhe sentir, a sensação vem sem pedir licença, dá aquela bela sacudida no seu corpo sem nem dar oi - e muitas vezes faz a gente tomar atitudes impensadas; mas se você (eu) tomar consciência do que está sentindo, tem a chance de escolher o que fazer com essa sensação.


Hoje, eu escolhi escrever - para tentar descobrir o que causou o mal-estar, e no processo de construção desse texto eu encontrei uma resposta. O ranço que eu sinto dessas pessoas vem de situações em que eu não soube criar barreiras saudáveis e por conta disso fui me senti desconsiderada. A partir desse raciocínio, entendi também que o rancor de algum modo é uma raiva direciona para mim mesma, causada pela culpa de ter me permitido estar naquela situação.


A memória e a sensação que ela traz servem então como um lembrete - mesmo não tendo como voltar atrás no tempo e sabendo que não exerço nenhuma ingerência sobre a postura das outras pessoas, sei que posso sempre olhar para o passado como fonte de informação e então balizar minhas posturas no presente. E desse lugar de compaixão por si mesmo a gente consegue - com um pouco de esforço, é verdade - expandir para as pessoas que ali estavam; porque qualquer interação é fruto de um acordo, mesmo que tácito, e se a gente saiu machucado, as chances de isso também ter acontecido com o outro são enormes.


Assim, se couber para a história que trouxe essa dor, podemos buscar resolver, conversar com quem nos fez sentir de desse modo; ou ainda, podemos perceber que de fato a presença dessas pessoas não cabe mais na nossa vida, e tudo bem também.


O exercício que deu origem a esse texto foi curtinho, 10 minutos - tá, a terapia que dá base à vontade de empreendê-lo levou um tantinho a mais, mas e eu fico me perguntando por que a gente não estimula isso nos ambientes profissionais... a situação que causou o ranço aconteceu em um espectro dito "progressista": entre belos discursos sobre sustentabilidade, consciência, colaboração e afins, rasteiras e sorrisos amarelos. Se nesses lugares em que existe minimamente a tentativa de acertar, imagine em espaços corporativos hard core onde essa reflexão seria facilmente chamada de mimimi?!


O que eu sei, é que novos tempos começam... e tudo que eles pedem é uma tentativa real de emparelhar discurso e prátiva. Quer dizer que amanhã vamos todos estar contando "vai florescer..." em roda? Acho muuuuuito pouco provável, mas um olhar mais atento já começa a notar as mudanças, mesmo em meio a esse caos. E como a única verdadeira instância de poder é sobre o amontoado de células que a gente chama de "eu", o mínimo passo elegante para entrar nesse caminho é se perguntar: "como eu me sinto hoje?".


Eu? Até 5 minutos atrás sentia rancor, nesse instante eu sou puro Amor.

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