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Quem gosta de trabalhar?

Sejamos honestos: quem é que curte a rotina mecânica que envolve pegar trânsito pela manhã, sorrisos falsos no escritório, a desculpa esfarrapada pra fugir do almoço com aquele colega mala, o machismo do chefe, a fofoca vazia dos corredores, a constante sensação de que seu salário não condiz com as suas funções, o trânsito na volta pra casa?


Cada um no seu quadrado


A situação descrita ali em cima só acontece porque a História fez da sociedade moderna um molde que gera seres humanos iguais, o que é antinatural. Somos muitos e somos diversos, incrivelmente diversos e isso deveria ser celebrado, enaltecido, mas da dificuldade em lidar com o que é diferente nasce a padronização. Tá bem, ela também serviu para suprir as necessidades que uma sociedade em expansão suscitava, mas assim como fomos capazes de nos adaptar às circunstâncias à época, é preciso compreender que uma nova revolução está em curso.


Se respeitássemos perfis de comportamento e de fato agíssemos de modo a promover interações saudáveis entre pessoas não afins, a máquina estaria funcionando lindamente e com todo mundo feliz - me explico: o problema não está no fato de existirem funções diferentes, mas no juízo de valor que fazemos sobre as atividades e consequentemente sobre quem as executa.


O homem foi capaz de controlar o fogo, domar animais, cultivar a terra, criar redes de comércio e indústrias: somos igualmente competentes para nos reinventar mais uma vez.

Mas o ser humano - espécie que presunçosamente se autodenominou sapiens - ao se perceber como superior, como ocupante de um suposto 'topo da cadeia', esqueceu que toda grande mecânica depende da porca e do parafuso; que um sistema digital começa na linha de programação; que a saúde pública depende da boa limpeza urbana. Como tudo na vida, criamos escalas, escadas e eixos, para nos diferenciar e distanciar dos outros - um verdadeiro labirinto, pois a saída depende de um olhar holístico que inclua todo mundo.


Criamos padrões de recompensa para os diferentes saberes como se um fosse mais importante do que o outro - e sinto muito informar, por mais que a sua racionalidade tente mostrar que os 10 anos de estudo do médico devem ser melhor recompensados que a formação básica do gari, eu me vejo forçada a te lembrar que sem o agente de limpeza pública não tem médico que dê conta da disseminação de doenças que resíduos não tratados acarreta.


Me lembro de uma fala do professor Ocimar Alavarse que durante as aulas da Licenciatura buscava nos instigar a pensar numa Educação diferente: "faculdade não é pra todo mundo". Eu me recordo do estranhamento inicial com a declaração e da satisfação ao entender o que ele queria dizer; o ensino superior nos é empurrado goela abaixo porque o sistema que criamos diz que é através desse caminho que conquistaremos uma vida melhor, mais digna. E isso é problemático! Não porque o conhecimento acadêmico seja algo ruim, mas porque ele vem com etiqueta de preço e status social enquanto os saberes práticos são tido como menores e consequentemente mais baratos.


É nesse cenário que surge o desgosto pelo trabalho e a situação descrita no começo desse texto: a gente elegeu profissões e instituições específicas que supostamente levariam a sociedade para o infinito e além, mas que no final das contas o que temos como resultado são pessoas desmotivadas trabalhando em atividades que não lhes interessam mas pagam os boletos (e as brusinhas); centros urbanos apinhados de gente com prédios cheios de espelhos que aumentam as ilhas de calor (sem falar o quanto são cafonas); cidades desconectadas com o ecossistema do qual fazem parte, enterrando rios para fazer caber ainda mais pessoas desmotivadas e prédios cafonas.


A grande questão é que dessa vez a revolução envolve dar um passo para trás: e esse mindset que nos força pra frente e pra cima sempre está nos impedindo de perceber que vai ser desacelerando o trem que a gente vai chegar na estação. É essa mudança que vai nos fazer voltar a curtir o que faz, a ter prazer em realizar, em colocar ideias em prática - quem sabe até escolher uma outra palavra, porque 'trabalho' já vem cheia de conotações ruins.

E sim, voltar a investir em trens é um ótimo caminho para desafogar o trânsito. ;)

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Lisboa - Portugal